O ano de 2026 começou e com ele, mais uma campanha do Janeiro Branco, mês de conscientização social sobre a saúde mental e emocional da população brasileira. Desta vez, a campanha traz como tema “Paz, Equilíbrio. Saúde Mental”, na tentativa de gerar reflexões a partir da realidade individual das pessoas, mas ressaltando aspectos básicos que favorecem o bem estar social, como o direito ao descanso, ao lazer, a ambientes de trabalho humanizados, bem como o acesso à políticas públicas e à saúde física e mental das pessoas.
Porém, falar sobre paz e equilíbrio num contexto onde à população padece do básico, como falta de profissionais como; psicólogos, terapeutas ocupacionais e psiquiatras na rede básica de saúde, ou até mesmo de medicamentos que garantem seguridade e continuidade no tratamento psicológico, é no mínimo desafiador, pra não dizer impossível.
NA CAPITAL POTIGUAR:
Em Natal, por exemplo, a situação dos Centros de Atenção Psicossocial são preocupantes! No caso do CAPS LESTE III, o serviço funcionava em um prédio alugado que foi interditado pela vigilância sanitária em julho de 2024. Com o fechamento, o serviço foi fragmentado: o ambulatório passou a funcionar no prédio do Ambulatório de Prevenção e Tratamento de Tabagismo, Alcoolismo e outras Drogas (APTAD), uma sala de reuniões foi improvisada no auditório da Unidade Básica de Saúde de Pirangi e os leitos foram redistribuídos entre dois CAPS AD (Álcool e Drogas). A situação se agrava ainda mais, devido ao atraso na construção da sede própria do CAPS III Leste, cuja entrega estava prevista para janeiro de 2024, mas que sofreu sucessivas interrupções e segue inacabada.
Já o CAPS III AD Norte, localizado no bairro Potengi, segue em funcionamento 24 horas, mas enfrenta sérios problemas estruturais. Em vistoria realizada na última quarta-feira (7), pelo diretor do Sindsaúde/RN, Paulo Martins, foram constatadas falhas como ausência de portas, portões e muros, portas enferrujadas, janelas quebradas e falta de vigilância. Além disso o CAPS Infantojuvenil localizado na Cidade da Esperança, também enfrenta o desafio de ser o único serviço do município voltado ao atendimento psicossocial de crianças e adolescentes. O serviço atende casos de ansiedade, depressão e risco de suicídio, enquanto divide parte da demanda com o Centro Especializado em Reabilitação (CER), responsável por quadros como TEA e TDAH. Por se tratar de uma situação inaceitável, o Sindsaúde/RN levará a situação da rede de saúde mental de Natal ao Ministério Público.
NO RIO GRANDE DO NORTE:
No Estado, os serviços voltados à saúde mental também vivenciam o desmonte, a falta de investimentos e às péssimas estruturas. O Hospital Geral Dr. João Machado, referência no atendimento de doenças mentais, por exemplo, enfrenta a precarização do serviço. De acordo com a recente denúncia realizada pelo Sindsaúde/RN no final de dezembro de 2025, a Clínica Médica 2 da unidade operava em condições precárias, com falta de insumos, número insuficiente de profissionais e um perfil de pacientes incompatível com a estrutura disponível.
Apesar de ser classificada como clínica médica, a unidade recebe majoritariamente pacientes semi-intensivos e intensivos, sem o suporte adequado para esse nível de complexidade. Entre as principais denúncias está a escassez de materiais básicos, como capotes e lençois, o que compromete diretamente a segurança da assistência.
Esse panorama é apenas um fragmento do que acontece na saúde de Natal e do Rio Grande do Norte, mas infelizmente se assemelha à realidade de muitas outras capitais e estados brasileiros. Para garantir amparo e condições dignas à saúde mental, primeiro é necessário investir em políticas públicas que tratem a saúde mental como prioridade, assegurando recursos financeiros e humanos suficientes, ampliação e fortalecimento da rede de atenção psicossocial e a oferta de um atendimento eficaz, contínuo e de qualidade para toda a população. Somente com compromisso real do poder público será possível transformar o discurso de “paz e equilíbrio” em uma experiência concreta na vida das pessoas.